Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘O ato de presentear’

Foto extraída do livro Paranóia de Roberto Piva – fotógrafo Wesley Duke Lee

Introdução

Ainda hoje é possível ouvir histórias de pessoas mais velhas que tinham como hábito levar como presente generoso ao vizinho um pouco da comida que havia feito, fosse um pedaço de bolo ou alguma porção salgada. E o suporte que fora enviado com a guloseima raramente era devolvido ao dono vazio, sempre voltava com outro quitute como retribuição.

Hoje em dia é muito mais difícil encontrar histórias como essa ou ainda pessoas que ainda tenham este costume. As condições necessárias para que se fabrique comunidade se perdeu, hoje vivemos numa multidão de estranhos, o que impede a chance de comunidade se materializar.

Comunidade

Bauman diz que: “a comunidade é um lugar “cálido”, um lugar confortável e aconchegante. É como um teto sob o qual nos abrigamos da chuva pesada, como uma lareira diante da qual esquentamos as mãos num dia gelado. Lá fora, na rua, toda sorte de perigo está à espreita; temos que estar alertas quando saímos, prestar atenção com quem falamos e a quem nos fala, estar de prontidão a cada minuto. Aqui, na comunidade, podemos relaxar – estamos seguros, não há perigos ocultos em cantos escuros (com certeza, dificilmente um “canto” aqui é “escuro”). Numa comunidade, todos nos entendemos bem, podemos confiar no que ouvimos, estamos seguros a maior parte do tempo e raramente ficamos desconcertados ou somos surpreendidos. Podemos discutir – mas são discussões amigáveis, pois todos estamos tentando tornar o nosso estar juntos ainda melhor e mais agradável do que até aqui e, embora levados pela mesma vontade de melhorar nossa vida em comum, podemos discordar sobre como fazê-lo. Mas nunca desejamos má sorte uns aos outros, e podemos estar certos de que os outros à nossa volta nos querem bem. (BAUMAN, 2003)

No entanto, “hoje em dia as cidades são conjuntos grandes, densos e permanentes de seres humanos heterogêneos em circulação, lugares em que estamos fadados a vaguear numa grande multidão de estranhos diversos, dessa forma tendemos a nos tornar superfícies para os outros – pela simples razão de que essa é a única coisa que uma pessoa pode notar no espaço urbano com grande quantidade de estranhos”. (BAUMAN, 2003)

O sentido de comunidade se perdeu, as pessoas não sabem sequer o nome do vizinho, quanto mais possuem intimidade para lhe fazer uma surpresa. A contemporaneidade modificou a forma como as pessoas se socializam, o tempo ficou curto, há muito que fazer e a busca por tudo o tempo inteiro faz com que cada indivíduo se enclausure dentro de si mesmo e de seu computador de bolso.

Há um mundo inteiro dentro do computador e a sensação de socialização acontece através das redes sociais, não sendo mais tão necessária a presença física para encontros e conversas. Dessa forma as pessoas estão ficando cada vez mais distantes umas das outras, corpos distantes dissimulando assim a comunicação. A comunicação torna-se cada vez mais fragmentada, assim como a vida dos indivíduos, que se dividem entre trabalho, estudo, família, filhos, amigos, facebook, etc, tudo ao mesmo tempo e agora.

Comunicação

Os estranhos que passam pelas ruas por onde andamos, as “superfícies”, são bem visíveis, estão todos, por assim dizer, ao nosso alcance, e assim podemos afastá-los (por medo) ou procurar formas de manter uma socialização pessoalmente. Está tudo muito volátil, não existe mais a certeza de que “nos veremos outra vez” e por sua vez os vínculos estão ficando cada vez mais rasos e unidos por ligações invisíveis.

Maurice R. Stein em 1960 já afirmava: “as comunidade se tornam cada vez mais dispensáveis….As lealdades pessoais diminuem seu âmbito com o enfraquecimento sucessivo dos laços nacionais, regionais, comunitários, de vizinhança, de família e, finalmente, dos laços que nos ligam a uma imagem coerente de nós mesmos.”

Temos necessidade de nos sentirmos parte de uma comunidade, para termos a noção do que somos. Quando não fazemos parte de um todo, nossa identidade dispersa.

Os mais incomodados e não adaptados a esta rede social tendem a buscar soluções biográficas para essas contradições sistêmicas; é preciso procurar a salvação individual desses problemas compartilhados e por muitos despercebidos. Neste caso pode utilizar-se do sistema de dádivas como mecanismo necessário para constituição de vínculos sociais.

Mauss afirma que o primeiro presente seria uma espécie de “convite a parceria”, uma proposta para que ambos, doador e receptor, entrem em uma relação, em princípio infindável. O presente dado como retribuição como um “novo primeiro presente”, o qual, ao invés de “quitar” a primeira oferta (como na lógica mercantil), expressa uma aceitação da relação e exige, por sua vez, uma nova retribuição, lançando doador e receptor em um movimento eterno de dádivas e contra dádivas.

Mauss, em seu “ensaio sobre a dádiva” afirma que as coisas dadas seriam “animadas” portando algo do doador mesmo que afastadas dele. Assim, as almas estabeleceriam vínculos entre si por meio de coisas trocadas: “disso segue que presentear alguma coisa a alguém é presentear algo de si.” Essa “virtude” que Mauss afirma existir, é segundo ele o que força a circulação dos presentes.

Na troca há algo mais do que coisas trocadas, pode haver um processo de formação de grupo, pois permite escapar a tensão provocada pela coexistência entre a “norma da solidão” e o “fato da comunidade”, instaurando um clima de cordialidade em substituição a indiferença. A retribuição neste caso pode gerar pequenos vínculos sociais, entre as quais uma conversa, além da condição de philia, que são saberes e comportamentos compartilhados.

Além disso, o presente pode ser utilizado muitas vezes como início de uma comunicação. O sentido do presente pode ser uma proposta de estabelecimento de um vínculo entre doador e receptor, porém seu significado só se concretiza na reação do receptor, ainda que sob a forma de uma recusa. Essa análise da reação suscitada para a compreensão do sentido do ato de presentear pode ser considerada já uma retribuição.

Como o sistema de dar e receber não segue exatamente as regras de obrigatoriamente haver retribuição, o ato de presentear deveria ter inicio em algo espontâneo e desinteressado. E o intervalo entre a dádiva e a retribuição juntamente com a incerteza da retribuição completam-se para diferenciar a dádiva do escambo.

O Objeto – O Presente – A Dádiva

Os objetos podem “ser inúteis do ponto de vista da sobrevivência se forem “abstratos”, características que seriam uma condição para que esses objetos servissem de suportes materiais de projeções imaginárias, podendo “materializar” relações sociais e sistemas de pensamento. (Godelier apud COELHO, 2006)”. O objeto doado pode ser entendido como uma forma de manipulação de impressões, como um recurso utilizado para criar uma determinada representação de si.

O presente pode no seu sentido estrito, ser realmente um espelho: as imagens que devolve podem apenas se suceder sem se contradizer. É um espelho perfeito já que não emite imagens reais, mas aquelas desejadas.

Sendo um objeto considerado único no sentido de ser criado (e este momento da criação é irreversível) pensando em uma pessoa, um suplemento de aura e alma deve emanar dele. Em tempos pós-modernos este objeto pode ser copiado idêntico ao original, porém o valor de vínculo, descrito por Godbout, que é o que vale um objeto no universo dos símbolos, seria o que predominaria no ato de presentear.

Segundo Baudrillard todo objeto tem duas funções: uma que é a de ser utilizado e a outra é a de ser possuído. O fetiche pela idéia de posse pode nascer da fascinação pelo objeto artesanal e pelo fato de ter passado pela mão de alguém cujo “trabalho” ainda se acha nele inscrito.

Os objetos recebidos guardam a aura da criação e essa força do aqui e agora fica impressa no objeto. Quando um presente é ofertado, a força que há na coisa dada produz imagens que tem função de trazer alguma coisa a memória. Dessa forma, mesmo que o vínculo não prossiga, as lembranças boas ou más permanecerão por algum tempo.

A memória, sem dúvida, tem algo a ver não só com o passado, mas também com a identidade e assim, com a própria persistência no futuro (ROSSI, 2010).

A escolha de um objeto específico como uma forma de tradução de afeto insiste na lógica de fazer-se presente na vida do outro através de um objeto ofertado, nem que seja somente na lembrança.

O objeto não é uma simples escolha de coisas, ele é uma tela do parecer cujo propósito consiste em entreabrir, em deixar entrever, graças ou por causa da sua imperfeição uma possibilidade de além sentido. Sentido que o receptor lhe atribui.

Considerações Finais

Com a degradação do sentido de comunidade, como se introduzem valores transcendentes nos comportamentos cotidianos? E como podem eles ser integrados? Como buscar novas alianças não se valendo do meio virtual?

Ressignificando objetos gastos que nos rodeiam? Ressignificando relações intersubjetivas esgotadas ou prestes a ser? Ressignificando a vida, trocando os signos por gestos?

O presente realiza, assim, sua vocação de ser uma gentileza, um carinho, ou um afeto e o valor pode ser construído pelo afeto implícito no ato de doar e pelo uso feito pelo receptor. O presente já é o afeto envolvido no gesto da doação e este é o seu valor.

O sistema de dádivas pode ser um bom caminho para (re)pensar a natureza da vida social, afinal os objetos dados e recebidos apresentam a capacidade de funcionar como veículo para expressão individual, comunicando emoções e elaborando imagens dos indivíduos envolvidos na troca. Os presentes podem ser um recurso utilizado para falar de si, do que sentem, de como se vêem, de como querem ser vistos, de como iniciar uma relação comunicacional afetiva afastando-se dos mecanicismos das relações.

 

Referências Bibliográficas

BAUDRILLARD, Jean. O sistema dos objetos. – São Paulo: Editora Perspectiva, 1968

BAUMAN, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Tradução Plínio Dentzien. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003

BENJAMIM, Walter. A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica

COELHO, Maria Claudia. O valor das intenções: dádiva, emoção e identidade. – Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006.

GREIMAS, Algirdas Julien. Da imperfeição. Tradução Ana Claudia de Oliveira. – São Paulo: Hackers Editores, 2002

MATOS, Olgaria C.F. Benjaminianas. – São Paulo: Editora UNESP, 2010

PIVA, Roberto; LEE, Wesley Duke. Paranóia. – São Paulo: Instituto Moreira Salles e Jacarandá, 2000.

ROSSI, Paolo. O passado, a memória, o esquecimento: seis ensaios da história das idéias. Tradução Nilson Moulin. – São Paulo: Editora UNESP, 2010

 

Tá em Choque?

GABI!

Read Full Post »

%d blogueiros gostam disto: